domingo, 15 de dezembro de 2013

Qual é teu nome?



A importância do “nome”, de um “nome”. E a importância da conquista desse “nome”, significado de liberdade e de justiça, pelo próprio povo, protagonista de sua história.


Condutor, e não conduzido.


Padre Dario Bossi nos contempla com essa reflexão e nos aponta  um caminho, e nos dá o significado para esse “nome”, a ser escrito por seu povo.


(Eduardo Hirata)








Qual é teu nome?


(Padre Dario Bossi. Comboniano)


“Qual é teu nome?” – pergunta Jesus ao demônio que tinha se apoderado de um homem na cidade de Gerasa. Numa outra ocasião, na sinagoga, é o próprio demônio que tenta apavorar Jesus, dizendo-lhe publicamente: “Eu sei quem você é: o Santo de Deus!”


Parece que conhecer o nome de uma pessoa é como possuí-la, poder dispor dela.


O nome é a essência de um indivíduo ou de uma localidade. Eu faço questão de perguntar às crianças quem escolheu o nome delas, e por quê.


É importante que cada pessoa conheça sua origem. E o nome de um local contém toda sua história.


Quando trabalhava no movimento por moradia na zona leste de São Paulo, a ocupação urbana em que vivíamos há vários anos tinha nomes bonitos visíveis em cada esquina: “Rua dos Trabalhadores”, “Rua do Povo”, “Rua da Árvore”, “Rua padre Ezequiel”... Cada nome recolhia em si símbolos e testemunhos de luta e resistência.


Da noite pro dia, de repente, a administração municipal trocou todas as placas substituindo-as com nomes desconhecidos de personalidades japonesas. Nada contra nossos irmãos do Extremo Oriente, mas foi a pior violência contra as raízes e a cultura de nosso povo. E visava enfraquecer sua resistência e organização.


Hoje vivo no município de Açailândia, Maranhão profundo. E testemunho de novo o ataque à essência da vida e da história.


Às portas da cidade está escrito, em caracteres cubitais, “Bem-vindos à Cidade do Aço”. Que saudade dos açaís que batizaram nossa cidade pouco mais de trinta anos atrás! Arrancados pelo latifúndio e as siderúrgicas, tornaram-se espécie rara.


Em compensação, cartazes e outdoor nas avenidas principais ressaltam com insistência que estamos na “Cidade que mais cresce no Maranhão”.


A propaganda, no melhor dos casos, é sempre meia verdade. A siderurgia e o ciclo de mineração nos permitiram, de fato, crescer. Faltaria porém complementar: “Açailândia cidade que mais cresce, que mais separa e menos partilha”.


A riqueza traz egoísmo, precisa cancelar a memória do passado comum e impõe sua própria narração da história. Camufla seus impactos tentando criar novos significados, sugerir outros valores e distorcer nossos sonhos.


Açailândia tem um bairro em processo de luta, de afirmação de sua dignidade e de fuga da poluição.
Seu nome é Piquiá. Temos orgulho desse nome, que desponta alto como uma castanheira na floresta.


O povo de Piquiá também se levantou em busca de justiça. Suas denúncias chegaram a comover muitos no Brasil e no mundo.


Finalmente, estamos a um passo do reassentamento: um novo bairro, planejado junto aos moradores, virá a ser construído numa área livre da poluição.


Dessa vez, caberá à comunidade (e não aos “patrões da história”) dar o nome ao novo bairro. Nesse nome, se condensará toda a caminhada de resistência e toda a carga de esperança de uma nova vida, já concebida e agora quase pronta para nascer!



************************************************